Hoje ela faria oitenta e três anos, se o tempo fosse essa coisa linear que nos contam. Mas Marília não cabe em números; ela é um estado de espírito. Era uma, mas carregava em si o cansaço e a glória de mil mulheres. Pianista, bailarina, cantora, o que importa o título? Ela era, sobretudo, presença. Marília, Presente!
Dizem que aos quatro anos ela já experimentava o chão do palco. O que sente uma criança ao descobrir que o mundo é feito de tábuas e luzes? Talvez ali ela tenha entendido que a solidão de um monólogo não é falta, mas transbordamento. Estar sozinha no palco era o seu modo de ser um mundo inteiro.
Houve um dia, no quase-início, em que ela e Elis se cruzaram. Duas forças brutas em busca de um destino. Marília venceu o teste, mas quem vence quando a arte é que nos captura? O destino já estava escrito nas mãos que tocavam piano e na garganta que teimava em cantar.
Depois, veio o silêncio do corpo. O cansaço do pulmão que esquece de respirar a vida aos setenta e dois anos. Mas a morte é apenas um equívoco da memória. Ela mesma disse: viver é um exercício maravilhoso, ainda que doa. E Marília exercitou-se até o limite do impossível.
“Sou uma atriz? Não, sou um mistério que se desdobra em cena.”
©️ Beatriz Esmer
