Dizem que o corpo é entrega, mas o corpo é apenas um disfarce que se retira e se devolve ao armário. Se eu te dou a minha pele, amanhã acordo inteira em mim mesma; pego-me de volta, lavo-me do seu toque e sigo. O sexo é um cansaço que passa. Mas a conversa… ah, a conversa é uma hemorragia de silêncios rompidos.
Quando te dou meus pensamentos, não há devolução. Você parte levando um pedaço real de mim, algo que não é carne, mas o que sustenta a carne. Você vai embora com o que está sob o meu couro, com aquela verdade muda que eu só sussurro para o espelho quando ninguém está olhando.
Entregar o corpo é um rito; entregar o que penso é um sacrifício. Eu fico menor ao te contar quem sou, e você cresce com a minha substância. É uma intimidade perigosa, dessas que deixam a gente do avesso, exposta no que há de mais cru e secreto. No fim, você não possuiu meu corpo; você possuiu o meu mistério. E o mistério, uma vez dito, nunca mais volta para casa.
©️ Beatriz Esmer
