O Espelho do Outro e a Minha Fome

Às vezes me perco tentando entender por que recebo tão pouco, quando ofereço tanto. Mas aí o silêncio da casa me responde: as pessoas só te dão o que elas são. E o que elas são, tantas vezes, é um deserto que nada tem a ver com a minha sede.

É um erro de gramática da alma esperar que o outro nos entregue o que julgamos merecer. O merecimento não é uma moeda de troca; é um estado de ser. Entendi, num susto de lucidez, que o que eu mereço sou eu quem vou me dar.

Não é egoísmo. É uma espécie de cura. Retiro dos outros a obrigação de me preencherem e aceito a tarefa difícil, e quase sagrada, de ser a minha própria fonte. No fundo, a gente só é o que se permite receber de si mesmo.

©️ Beatriz Esmer

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