No zumbido silencioso da vida, esse ruído que só se ouve quando paramos de ser gente para sermos apenas coisa, vi um menino que corria. O riso dele não era som, era uma costura; ia tecendo-se através do tecido puído do tempo. As horas, essas criaturas invisíveis, dançavam ao redor dele, presas no rastro de sua alegria crua.
Eu? Eu mergulhei os pés na correnteza fluida dos momentos. Ali, entre o frio da água e o calor do ser, encontrei uma casa. Uma casa feita de instantes, de onde o meu eu mais profundo jamais quis sair. É um domicílio sem paredes, entende? É puro estado de graça.
O sol é o meu companheiro fiel, mas um companheiro mudo. Ele ilumina a estrada que não caminhei, uma rodovia de luz estendida sobre o “não-ser”. Seus raios dourados demoram-se ali, abraçando o caminho intocado com uma paciência que me assusta. E então, vi a mulher. Ela cuidava do milagre, aquela estranha fabricação de outra vida dentro de si. O tempo, por um capricho, parou. Deixou-me espiar o sagrado inchaço do ventre — onde a arte e a existência se dão as mãos num pacto secreto. Foi o que o sol me revelou: uma força tão potente que me obriga à música. É uma energia inexplicável, um magnetismo esquisito no ar que me faz querer soltar a voz, não por vontade, mas por uma obediência cega ao que é vivo.
O tempo… ah, o tempo é implacável, sim, mas ele não murcha. Ele é o eterno frescor do que se acaba. É um jogo reservado aos adeptos, uma dança perigosa com o fogo que incendeia as coisas para que elas finalmente brilhem. O sol, o tempo, a estrada, o pé, o chão. Tudo é uma coisa só. Essa força me empurra, me manda cantar e nunca, jamais, estacionar. É uma correnteza que não perdoa a inércia.
Eu obedeço. Eu sou o que flui. 🙏🏾
©️ Beatriz Esmer
