Às vezes, eu me perco propositalmente ali. É um exercício de desamparo. Deixo-me sentir a minha própria pequenez, essa coisa mínima que sou eu, que somos todos nós, grãos de nada sob o peso do mundo.
Lá em cima, milhares de pessoas passam zunindo. Cada uma encerrada em sua própria bolha de pensamento, pequenas redomas de vidro onde flutuam angústias e espantos. Elas não sabem. Elas não podem saber que, logo abaixo de seus pés, há alguém. Alguém que freme, que se rala no atrito de existir. Uma mulher ocupada em se afligir com a própria “situação de vida”, como se a vida fosse algo que se pudesse organizar em prateleiras.
Estou perdida, sem saber para onde ir ou como chegar. E é de um ridículo atroz, essa minha seriedade. É quase bobo. Perco-me no futuro, esse não-lugar, e, no processo, esqueço inteiramente de ser agora. O presente é um bicho que me escapa enquanto tento nomear o amanhã.
©️Beatriz Esmer
