O Estado de Ser: Uma Simplificação

Às vezes, o que eu chamo de simplicidade é, na verdade, um luxo de alma. Não o vazio que o mundo entende, esse despojamento árido, mas uma nudez que transborda. Eu quero a liberdade de ser inútil. Sim, a santidade de não servir para nada, a não ser para o milagre de estar viva.

Sentar-me à janela enquanto chove. A chuva não pede licença; ela segreda coisas à terra, e eu, em minha mudez, escuto. Perder-me em livros que não me interrogam. Quero palavras que sejam apenas isso: luz bailando na água, ou o ritmo cego do meu próprio sangue. Sem análises. O entendimento é um muro; eu prefiro o sentir, que é um descampado.

Sinto nas mãos uma urgência física. Não é talento, é fome. Riscar o papel sem o peso do “belo”, mas com a verdade do traço que nasce como o choro ou o riso: sem plano. Quero respeitar o meu corpo antes que ele precise gritar. Deitar-me com a lua e acordar como se a manhã fosse uma extensão da minha própria pele, espreguiçando-se comigo. Sem o relógio, esse carrasco mecânico. O tempo não deve ser mestre, mas um bicho de estimação que caminha ao meu lado.

As correntes que forjamos, o metal das moedas, o tique-taque das obrigações, são mentiras que aceitamos como verdades. A vida não se mede; a vida se gasta. Quero existir onde o “possível” se desmancha como névoa ao sol.

Ser vasta. Ser o céu depois da tempestade, que é grande demais para caber em definições. Viver não pelas regras de um mundo que esqueceu como se olha para uma flor, mas pela verdade silenciosa e insistente de ser quem sou. Simplesmente ser. No meu erro, no meu brilho, na minha glória imperfeita. Respirar pelo prazer de que o ar existe. Sonhar porque o sonho é a matéria-prima do real.

Existir é um ato de alegria radiante. E isso, por si só, já é tudo.

©️ Beatriz Esmer

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