O Espetáculo do Ovo Podre

As pessoas tagarelam. Elas usam a boca para mastigar o ar com críticas vazias, mas fecham os olhos para o abismo que Hannah Arendt, com aquela lucidez que fere, já havia mapeado. É um fato seco, como um osso exposto: a república americana não morreu; ela apodreceu por dentro. Desde o sangue de Kennedy na calçada e o mofo de Watergate, o Estado deixou de ser uma ideia para virar um balcão de negócios de homens que usam gravatas para esconder o colapso moral. O crime organizado não “entrou” no governo. Ele se tornou o governo. O que vemos hoje … Continue reading O Espetáculo do Ovo Podre

O Ovo e a Fúria

Era um povo que rezava. E, no entanto, entre um “Amém” e outro, havia um silêncio que não era de Deus; era o silêncio de quem espreita o próprio ódio como se fosse uma joia. Eles diziam “família” com a boca cheia de dentes, mas o que queriam era o osso, o corte, a segurança de que o outro — aquele que não sou eu — estivesse devidamente morto. Votaram. E ao votar, sentiram um prazer quase físico, uma espécie de espasmo de liberdade: a liberdade de finalmente não precisar ser bom. É um cansaço, sabe? Ser bom exige uma … Continue reading O Ovo e a Fúria

A Casa: Um Ensaio de Ser

Minha casa é o santuário do meu feminino, o refúgio onde meu ser se dissolve e se encontra no silêncio de cada canto. Não é apenas teto; é um tecido de texturas, livros e rostos emoldurados — uma sinfonia de padrões que dançam para o meu cansaço e refletem o que, em mim, é abismo. Tal como as paredes são a extensão do que desejo, minha alma é um caleidoscópio de alegrias cruas e dores que ainda não cicatrizaram. Cada vontade é um grito silencioso, um testemunho do que fui, empurrando-me para essa coisa vaga e urgente que chamamos de … Continue reading A Casa: Um Ensaio de Ser

Stay

There is a verticality to certain people. They do not arrive; they occur. Like a seed with a blind, hard will, they find the microscopic fissure in the stone of my solitude—that wall I built with such careful, sterile architecture. They do not ask. To ask is to be outside, and they are already a pulse in the dark, damp chambers where I keep my silence. And then, the word. Stay. At first, it was a cold object, a heavy pebble in the mouth. Foreign. But now it has begun to dissolve, becoming a secretion of my own ribs, a … Continue reading Stay

O Vazio que Transborda

Sento-me. E, ao sentar, percebo que a madeira dessas cadeiras não é apenas madeira; é um corpo que desistiu de ser árvore para virar espera. Elas estão ali, descascadas, expondo o ferro enferrujado como quem expõe as próprias veias após um longo cansaço. É uma nudez que não envergonha. Dizem para sentar-se com os que falharam. Eu entendo. É que quem nunca falhou ainda está muito ocupado com o brilho da própria armadura, e o brilho cega. Quem falhou, ah, esse já quebrou o espelho. No lugar do reflexo perfeito, restou o espaço. E o espaço é a única coisa … Continue reading O Vazio que Transborda

Como o “Mundo de Trump” Redefine a Soberania Latino-Americana

Barueri – O conceito clássico de soberania nacional, aquele que garante aos Estados o direito de autogoverno sem interferências externas, parece estar passando por um processo de “liquidação” na América Latina. Sob a administração de Donald Trump, o hemisfério ocidental não é mais visto como uma coleção de nações parceiras, mas como uma zona de gestão de crises e contenção de adversários. A análise do cenário atual revela que a soberania na região tornou-se, na prática, condicional. Washington não esconde mais o jogo: o direito de um país latino-americano de decidir seu destino termina onde começam as prioridades domésticas da … Continue reading Como o “Mundo de Trump” Redefine a Soberania Latino-Americana

The Arid Silence

There was no desert. There was only the dryness, a thing that existed before I did. I looked at the earth and it was not earth; it was a closed door made of dust. To love was to commit a crime against the void. I tried to transform it—I, with my small, human hands, playing at being a God who breathes into clay. I gave it my saliva, my blood, the heavy waters of a devotion that felt like an illness. I read the ancient verses, the Kama Sutra, but the words were just insects crawling over a stone. They … Continue reading The Arid Silence

All My Feelings Torn Apart

Capítulo 1 It is not enough to build. One must take the debris—the dry, silent dust of what we used to be—and wait for it to breathe. I touch the cracks and feel the mystery of a world forming, not because I want it to, but because the page has its own terrifying hunger. To write is to find the hope that hides in the dirt. Capítulo 2 I do not write with ink; I write with the blood of my own bewilderment. I tear a piece of my heart—not because I am brave, but because I am full. I … Continue reading All My Feelings Torn Apart

O Instante Já: Entre o Crepúsculo e a Aurora

Houve um momento, ali no silêncio da tarde que se desfazia, em que os joelhos cederam. Não foi uma queda, foi uma entrega ao chão. O céu não estava em cima; ele estava dentro, uma vastidão despida, espelho de uma fome que eu não sabia dar nome. E a Verdade, ah, essa coisa perigosa e lúcida, apareceu com sua coroa de luz. Era uma claridade que não iluminava, ela feria. Rasgava a pele, expondo o que eu tinha de mais cru, de mais entranha. Era o horror da própria beleza me obrigando a existir. “Levanta-te”, ela dizia, sem voz. E … Continue reading O Instante Já: Entre o Crepúsculo e a Aurora

The Instant of the Yes

Come. Or don’t come, but know that the air is thickening. Let us inhabit a verse by Lorca, not for the music, but for the blood of the rhythm, that dark sound of a guitar that scratches at the insides of the soul. We aren’t walking down a boulevard of old dreams; we are walking through the raw, gleaming matter of time itself. Memories are not ornaments here. They are mirrors that look back at us until we blink. Why do we keep these stagnant emotions like dead water in a vase? Break the glass. Let us laugh with a … Continue reading The Instant of the Yes