O Exílio Delicado

Existe, e como dói esse existir silencioso, um exílio que é puro sopro. Um segredo dito em voz baixa, bem ali, onde o mundo desiste de ter bordas. É um lugar que não se explica, apenas se é. Fica escondido atrás de uma porta qualquer, dessas sem maçaneta, situada no sótão alto da consciência, onde o pó das certezas ainda não assentou.

É uma fresta. Estreita, etérea, quase um erro de cálculo no espaço. É por esse vão que eu escorrego, fugindo do cansaço das horas, do caos que grita lá embaixo com dentes de ferro. Eu me busco no escuro.

Nesse santuário, o tempo não corre; ele ventila. É uma brisa que não tem pressa de chegar a lugar nenhum. O peso das coisas, esse chumbo que carregamos no peito, se desfaz como névoa diante do sol da manhã. É um milagre miúdo. Ali, eu vou catando os cacos, os fragmentos de mim que se perderam nos redemoinhos dos dias. Sou eu me recompondo no silêncio, sendo embalada por esse nada que é tudo. As feridas da alma, essas bocas abertas, vão se costurando sozinhas, pontinhos de uma força nova, uma força que não agride, se refaz.

É nesse refúgio clandestino, onde ninguém me vê, que a alma encontra o caminho de volta para a claridade. A gente emerge das sombras com um brilho que não ofusca, uma luz mansa, resiliente. Ali, eu me recupero. Retomo a minha paz como quem retoma o próprio nome. E então, inteira e curada, eu me levanto para enfrentar o mundo outra vez. Porque agora eu sei: o exílio é o meu segredo mais luminoso.

©️Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.