Descobri que as manhãs, às vezes, acordam com as pernas pesadas. São os dias doentes. Dias que não têm tamanho de pássaro, mas peso de pedra esquecida no fundo do quintal. Nesses momentos, a grama cresce sem música e o silêncio fica descascado.
Para tratar essas febres do mundo, não busco frascos de farmácia com nomes de latim. Procuro o que é desimportante.
Aprendi que o afeto ainda é um remédio. Ele não se toma com água; se toma com o olhar. É coisa de se passar na alma, como quem passa manteiga no pão quente. É um vício de ternura que faz a gente ver o lado de dentro das coisas.
O afeto é um resto de sol no ombro de quem se ama, o latido de um cachorro que entende o nosso silêncio, uma palavra que não quer dizer nada, mas que faz um cafuné na alma.
No meu quintal, o afeto tem a mania de ser simples. Ele não quer ser monumento, quer ser poça d’água onde o céu se banha. Porque só o que é pequeno consegue entrar nas frestas da dor para iluminar o escuro.
“A importância de uma coisa não se mede com fita métrica, mas com o tanto de paz que ela inventa na gente.”
©️ Beatriz Esmer
