Às vezes, o que nos falta não é o ar, mas a coragem de ser o que se é sem o medo de esbarrar no vizinho. Se pudéssemos trocar esse tremor miúdo por uma curiosidade de bicho, aquela que olha sem julgar, que apenas vê, talvez o mundo deixasse de ser uma casca rígida.
Sinto que a inveja é um cansaço de si mesmo. E se, em vez de nos encolhermos, nos dilatássemos em alegria? Seria menos sobre “eu” e mais sobre esse “nós” que é um mistério difícil de decifrar. O julgamento, você sabe, é uma forma de nos proteger da nossa própria fragilidade. Mas, ah, a compreensão… ela é um deserto que floresce.
A gente se perde querendo ser ilha. Mas a vida só acontece mesmo quando as mãos se encontram no escuro. E essa pressa de odiar? Esse ódio que vem de fora, mastigado por vozes que não são nossas, por telas que não têm rosto. É uma armadilha. Se aprendêssemos a existir nesse estado de graça, onde cada gesto, por menor que seja, nasce daquela vontade mansa de respeitar o que vive, a existência deixaria de ser uma tarefa para virar um brinquedo.
Viver seria, enfim, uma diversão séria. Porque o amor, o amor legítimo, é uma espécie de liberdade que não pede licença.
Saravá! ❤🙏
©️ Beatriz Esmer
Arte: O Mendigo — Ano: 2019
