A Entrega

O amor, meu filho, não é um porto. É o naufrágio que nos ensina, pela primeira vez, a respirar debaixo d’água. Sinto essa lucidez agora, como se estivesse diante de um espelho que não reflete o rosto, mas o avesso do rosto.

O amor retira. Ele chega com mãos leves de quem vai acariciar, mas, no toque, ele arranca. Ele nos tira as certezas, aquelas paredes mofadas que chamávamos de casa, e nos deixa ao relento, sob o céu aberto de uma dúvida que brilha. É uma troca cruel e santa: ele nos dá raízes novas, mas apenas depois de nos deixar com as mãos sujas de terra, olhando para as velhas raízes secas jogadas ao canto.

E os medos? Ah, o amor não cura o medo, ele apenas o transmuta. Ele dissolve aquele medo pequeno, o medo de não ser aceito, o medo do escuro… e nos brinda com medos vastos, oceânicos. O medo de que o outro deixe de ser, o medo de que o “nós” seja maior do que o “eu” suporta.

É um cansaço que descansa. Uma coragem que se descobre num dia e se perde no outro, deixando-nos vazios, como se a alma fosse um quarto que mudou de dono. E a lucidez… essa lucidez que dói por ser tão clara, tão desprovida de enfeites. É ver que não somos o que pensávamos, mas o que sobra depois que o amor passa e leva o que era excesso.

Mas escute bem, pois o silêncio entre as palavras é onde a verdade se esconde: existe um resto. Uma sobra que o amor não consegue levar embora porque ele não a “deu”, ele a “é”.

Apenas uma coisa o amor nos concede sem nada retirar em troca. É a coisa mais preciosa, o núcleo do átomo, o grito mudo no centro do peito: o próprio amor.

Ele é a sua própria recompensa e o seu próprio castigo. Ele se acrescenta a nós sendo, ao mesmo tempo, o ponto de partida e o abismo final. Ele é, simplesmente, a vida em estado de choque.

©️Beatriz Esmer

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