Houve um tempo em que eu colecionava ‘olás’ como se fossem troféus de relevância. Eu me contentava com as respostas curtas, os monossílabos pontuais e as reações automáticas.
Achava que o silêncio era o inimigo, então aceitava qualquer ruído para preencher o vazio. Até que a pergunta me encontrou: “A pessoa conversa com você ou só te responde?”
Naquele instante, percebi que eu passava os dias em salas de espera emocionais. “Responder” é um ato mecânico, uma devolução de bola para não deixar o jogo parar. É o “tudo bem” que não quer saber como as coisas realmente estão. É o eco de quem já está com a mão na maçaneta, pronto para sair.
“Conversar”, por outro lado, é demora. É quando o outro lança um anzol na sua fala e puxa algo que nem você sabia que estava lá. É a troca de fôlego, onde as sentenças não apenas terminam, mas florescem em novas perguntas.
Depois que aprendi a distinguir o som do interesse real do barulho do protocolo, meu círculo diminuiu, mas o chão sob meus pés ficou mais firme. Não há solidão maior do que estar acompanhado de alguém que só está ali para bater o ponto na conversa. Hoje, prefiro o silêncio absoluto à companhia de quem só me entrega o básico para não parecer ausente.
Aprendi que meu tempo é sagrado demais para ser gasto com quem não tem curiosidade pela minha alma.
©️ Beatriz Esmer
Art: Pintura acrílica 1,20X90cm.
