O Brasil, Esse Escuro que Lateja

Olho para o Brasil e não vejo números. Vejo um corpo que se contorce. Não é a falta de pão que nos rói; é uma fome de alma, uma coisa vasta e silenciana que nos habita como um bicho. Vivemos de morrer. É uma pulsão, entende? Um desejo de precipício.

Dizem que precisamos de moral, mas a moral é uma roupa apertada demais para quem nasceu no cabaré. O Brasil é esse salão de luzes vermelhas onde todos entram, onde o gozo é a única moeda que não desvaloriza. Eu me pergunto, entre um café e um silêncio: será que queremos mesmo a luz do dia? Ou preferimos o luxo sujo, o brilho efêmero de uma joia que se desfaz entre os dedos enquanto a memória apodrece?

A corrupção aqui não é um erro de cálculo. É um estilo de ser. É o nosso modo de sentir o mundo. Existe um prazer secreto em sofrer, uma erotização do ressentimento que nos mantém atados ao chão. Somos órfãos de um pai que nunca nos disse “não”. E, sem o limite, viramos essa festa desesperada na areia da praia, esse riso alto que esconde um vazio sem fundo. Não temos onde nos segurar.
E agora, esse novo mal. Esse nome que se tornou uma doença da pele e do espírito. O bolsonarismo não é política; é um modo cruel de não-ser. Ele exacerbou o que tínhamos de mais solitário: o ódio pelo vizinho, o desprezo pelo saber, a apologia ao sangue. É uma camada de cinza sobre o que já era escuro. Viramos estranhos uns para os outros, fechados em caixas de espelhos que só refletem a própria violência.

O que queres, Brasil? Eu olho para esse abismo e o abismo me olha de volta, com olhos de quem não quer ser curado. É difícil sustentar o peso de ser outro. É mais fácil continuar sendo esse espasmo, essa coisa inacabada que dói, mas que, ao menos, é nossa.

Sua reflexão de 2019 ressoa hoje porque você tocou no inconsciente do país, e o inconsciente não segue o calendário.

©️ Beatriz Esmer

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