Perdi-me dentro de casa, entre o cheiro do café e o silêncio das poltronas que me olham. Perco-me quando viajo, sob céus estranhos que não me reconhecem. Eu estou, e talvez sempre estive, perdida.
Antigamente, eu olhava para esse abismo e sentia o coração encolher. Parecia-me dilacerante, uma tristeza opaca, algo que se carrega como um erro. Mas hoje, enquanto olho para o nada e o nada me devolve o olhar, sinto um susto de clareza. E se não for um erro?
A alma tem dessas fomes. O que eu chamava de desamparo talvez seja apenas a Verdade nua: uma alma que não se contenta com o aqui, porque se lembra de um Lá. Estou perdida, sim, mas é um perder-se de quem caminha. É a busca incessante, quase física, de quem tateia o escuro tentando encontrar o caminho de volta para a Fonte.
Não é solidão. É o cansaço de ser apenas um “eu” quando se intui o Todo.
©️ Beatriz Esmer
