O Som do Amor

Escutei o amor, mas ele não veio como música. Veio como esse zumbido nos ouvidos, um tinido que não cessa, que não se explica e que, por não ter fim, acaba por se tornar o meu único silêncio. Ele me mantém acordada na vigília dos bichos. É um murmúrio opaco, uma nota persistente que apaga o resto do mundo. Fico na dúvida: será que invento esse tom ou é ele que me inventa? É baixo o suficiente para eu duvidar de mim, mas alto o bastante para fazer minhas têmporas latejarem com uma agitação que dói na carne. O amor é um barulho que não me deixa ser.

Provei o amor, e ele tinha o gosto do sal das lágrimas na boca. Uma sede que me resseca a língua, uma vontade de algo doce, de uma doçura que talvez nem exista. Sinto uma fome tão voraz que o mundo inteiro, se fosse feito de trigo, não bastaria. É uma sede viciosa, entende? Um aqueduto do tamanho de um oceano de água fresca seria apenas uma gota na minha garganta desértica. Eu sou um abismo que pede.

Senti o cheiro do amor, e ele era fumaça subindo de campos queimados. Terra escorchada. Queima-se a flor silvestre na esperança vã de domesticar o solo, de cultivar o lucro de um amor que já se perdeu entre as cinzas. É um perfume de destruição que se finge de recomeço.

E, no corpo, o amor foi essa corrente errática. Ele me seduz para além da arrebentação, onde o pé já não toca o chão, para logo depois me puxar pelo tornozelo no soco do refluxo. Estou sempre pisando na água, lutando pelo fôlego, sendo assaltada por ondas de um sentimento que não tem rosto, mas tem peso. É o esforço de não afogar-se no que se sente.

Conheci o amor, enfim, como um rasgo. Um rasgo no tecido do tempo e do espaço, uma fenda que interrompe o fluxo natural das estrelas. O amor é o erro de cálculo do universo.

Considero tudo isso, esse cansaço de ser e de sentir, e olho para o lado. Olho para o vazio da sala. E penso que talvez… talvez estar só me caiba melhor. Como um sapato que finalmente parou de apertar o pé. Ser sozinha é, quem sabe, a minha única forma de ser inteira.

©️ Beatriz Esmer

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