O Incêndio Silencioso

Quanto tempo suporta o peito,
essa fornalha trancada a sete chaves?
Onde o afeto era rio, agora é leito
de cinzas mornas e dores graves.
É um cansaço que a alma não traduz,
ver o rosto de um irmão tornar-se estranho.
Onde havia o abraço, hoje há a cruz,
e o peso do silêncio tem o seu tamanho.
Não sou feito de ferro, nem de herança bruta,
meu corpo é carne, grito e ferida.
E nessa amarga e solitária luta,
até a água se torna pedra endurecida.
Pois se eu abrir a boca e as mãos soltar,
se eu der ao mundo a voz do meu tormento,
o fogo que guardo não vai apenas queimar:
ele vai transformar em brasa o próprio vento.

©️ Beatriz Esmer

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