“Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai..”
— Cartola
Queixar-se às rosas é, antes de tudo, uma tentativa vã de organizar o caos do coração. Mas as rosas… ah, as rosas são de uma mudez ensurdecedora. Elas não têm o compromisso da palavra, esse fardo que nós, humanos, carregamos como uma redoma de vidro prestes a quebrar. Elas apenas são.
O que Cartola chama de “bobagem” eu chamo de estado de graça. Porque, veja bem: ao não falarem, elas dizem o essencial. Elas não explicam o amor; elas o exalam. E o perfume? O perfume não é delas. É um roubo sagrado. Elas extraíram de ti o que você nem sabia que possuía: aquela essência crua, viva, que escapa pelos poros quando o sentimento é grande demais para caber no nome que lhe deram.
“As rosas não falam”, ele diz. E eu acrescento: elas não precisam. Elas guardam o segredo do que foi roubado de ti e o transformam em ar. É uma forma de nos devorar suavemente.
Interrogar uma rosa é interrogar o próprio vazio. E o vazio, quando responde, vem em forma de cheiro. Um cheiro que dói porque é a prova de que você existe, de que você amou e de que, no fim das contas, a beleza é apenas o rastro de um roubo que ninguém pode punir.
©️ Beatriz Esmer
