O Esgarçar do Verbo

Como se escreve “eu te amo” quando a caneta não é mais um prolongamento da mão, mas um objeto estranho, um osso inerte entre dedos que desaprenderam a gravidade? Há um cansaço que não é do corpo, é de uma lucidez excessiva. A mão pesa. A tinta é um líquido mudo que se recusa a sangrar o que o peito retém.

Meu coração tornou-se de uma avareza absoluta. Ele guarda os sentimentos como quem guarda um segredo que, se revelado, o mataria. É um egoísmo sagrado: ele bate apenas para dentro, fechado em sua própria redoma, recusando-se à partilha obscena do papel. O papel é branco demais, é um vazio que me exige uma cor que eu ainda não tenho coragem de ser.

Eu não sei. E no não saber, encontro minha única forma de existir agora.

Então, desisto do registro.

Entrego-me à imprecisão do ar. Lanço sussurros macios à brisa, não são palavras, são quase hálitos, restos de uma alma que tenta se descolar de si mesma. Que o vento os leve até você, já que a gramática me falha. E, no fundo dessa entrega, há um desejo mudo, uma vontade de que o vento não leve apenas o que eu disse, mas que me desmanche também. Que ele me leve junto, suspensa, até que eu deixe de ser “eu” para ser apenas o encontro.

©️ Beatriz Esmer

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