A Enormidade de Estar

Tocar o próprio peito era, para mim, um ritual de inauguração. Sentir, sob o tremor asmático da caixa torácica, o motor implacável do coração, o fole dos pulmões e o fluxo do sangue, não era apenas biologia; era o susto de existir.

Eu me espantava. Havia ali uma força que não vinha dos astros ou de magias externas, mas de uma matéria densa e vibrante. Uma enormidade de poder que eu carregava sem saber o nome. Não era o poder de um deus, mas o poder humano de persistir, de simplesmente continuar. No cansaço do fôlego curto, a resiliência era um milagre mudo. Aguentar é, por si só, uma soberania.

Mas, no silêncio desse toque, eu percebia algo mais. Além da sobrevivência, havia um excesso, uma margem de criação que transbordava. Eu tinha o poder de somar ao mundo, de extrair o deleite do nada, de causar o espanto e, num ato quase sagrado de vontade, de transformar.

Não o mundo, isso seria vasto demais e talvez inútil. O que eu possuía era a capacidade de metamorfosear a mim mesma. Eu era o barro e a mão que o molda, o sopro e a própria asma, o criador e a criatura em eterna, e às vezes dolorosa, invenção.

©️ Beatriz Esmer

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