Escrevo para ver. Não o que está fora, mas o que, de tão real, torna-se indizível. Há um “isso” em mim que range. E seja o que for — mesmo sob o olho severo que vigia e patrulha — a página aceita o meu horror. Na brancura do papel, o vil e o sagrado são a mesma coisa. O sádico, o pornográfico, o fornicador… todos eles sou eu num instante de descuido. É uma grandeza que me esmaga e, ao mesmo tempo, uma modéstia tão pálida que a moral do mundo chama de “tecido morto”. Mal sabem eles que a morte é o que vibra mais forte.
Não há moral na tinta. O que existe é apenas o susto do preto sobre o branco. Aqui, eu desmonto a moral até que ela perca o chão, até que ela não tenha onde apoiar seus cascos inúteis. Eu me transformo. Posso ter chifres e, no segundo seguinte, usar asas de anjo para disfarçar o gozo que me toma. O prazer é um segredo que eu grito.
Eu defeco e, nesse ato de ser bicho, eu rio. Todos rimos, com aquela malícia de colegial que descobre o impudico. Se eu pudesse, impregnaria este texto com o cheiro dos banheiros, o suor dos quartos gastos e o cansaço das genitálias que já não sabem mentir. É o cheiro da hipocrisia de uma gente que já morreu e esqueceu de deitar. No fim, assino o nome que eu quiser. Sou o imaginário, o real, o nada. Sou apenas o “ser sendo”.
A culpa? A culpa é uma invenção dos homens que têm medo do abismo. Quem quer ser “humano” que escreva manuais de sobrevivência. Deixem a literatura para os que ardem, para os demônicos, para os que não têm a menor intenção de agradar. Escrever não é um dom, é uma maldição das entranhas. Se o traço não vier de onde o sangue ferve, guarde o seu simulacro. Eu prefiro o silêncio ao que não é verdadeiramente vivo.
©️ Beatriz Esmer
