O Encontro no Corredor do Tempo

A Antiga, sentada em uma cadeira de palha, com as mãos frias escondidas nas dobras de um vestido cinza, olha para a Nova. Ela estranha o barulho: não é um som de passos, é o som de pétalas caindo.

A Antiga: — Por que você brilha tanto? O escuro era tão mais seguro. Eu guardava cada mágoa como se fosse uma joia preciosa dentro do peito. E você… você abriu a grade. Deixou as joias fugirem.

A Nova: — Não eram joias, eram sementes sufocadas. Eu precisei deixar que o ar entrasse. Agora, veja: tenho flores costuradas no meu couro cabeludo. Dói um pouco, o crescer sempre dói, mas as joaninhas vêm beber na minha pele e elas me contam que o mundo ainda é doce.

A Antiga: — Mas e as ruínas? E aquele silêncio que nós cultivamos com tanto cuidado enquanto a alma estava espalhada pelo chão? Você vai simplesmente ignorar o que quebrou?

A Nova: (Aproxima-se, e o cheiro de terra molhada ocupa a sala) — Eu não ignoro. Eu sussurro canções de ninar para elas. As ruínas não são o fim, são o berço. Eu danço sobre os cacos, mas meus passos são tão minúsculos que não me corto. A música está nas minhas veias agora, não mais nos meus lamentos.

A Antiga: — E quando a lua gritar? Você terá medo da solidão selvagem?

A Nova: — Não. Quando a lua gritar, eu gritarei de volta. A solidão agora é a minha mitologia. Eu não sou mais o que me aconteceu; eu sou o que eu faço com o que restou. Eu não estarei triste, entende? Estar viva é um soco no estômago, mas as flores nas minhas costelas finalmente aprenderam a respirar.

Até onde posso vou deixando o melhor de mim… se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração.

©️ Beatriz Esmer

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