É uma ironia trágica, mas profundamente reveladora, que na maior democracia do mundo a indignação pública pareça ter trocado o pulso pelo bolso. Quando o debate sobre uma guerra deixa de ser sobre o luto e passa a ser sobre o déficit, testemunhamos uma falência moral camuflada de “responsabilidade fiscal”.
A Mercantilização do Conflito
Para o cidadão médio americano, a guerra tornou-se um produto de consumo distante. Como não há mais o risco do recrutamento forçado (o draft), o corpo do “outro”, seja ele o soldado americano voluntário ou o civil estrangeiro, é invisível. O que é visível, entretanto, é o preço da gasolina no painel do posto e o desconto no contracheque.
Essa mentalidade transforma a geopolítica em uma planilha de Excel:
—Vidas são tratadas como externalidades inevitáveis.
—Dólares são tratados como o recurso sagrado que não pode ser “desperdiçado”.
A Distância que Anestesia
Essa priorização do dinheiro sobre a vida não é apenas egoísmo; é o resultado de uma sociedade anestesiada por décadas de intervenções militares que não resultaram em vitórias claras, mas sim em faturas astronômicas. A empatia foi substituída pelo ceticismo contábil. Quando o governo anuncia bilhões em ajuda militar, o povo não vê a proteção de direitos humanos; vê o dinheiro que falta para o sistema de saúde falho ou para as escolas sucateadas.
“A tragédia moderna não é a morte em si, mas o fato de que a morte só se torna relevante se o custo de evitá-la for considerado um bom investimento.”
Ao focar apenas no custo financeiro, a sociedade americana retira a humanidade do “inimigo” e do “aliado”. Se a guerra é cara demais, eles pedem o fim do gasto, não necessariamente o fim da violência. Isso cria um isolacionismo perigoso, onde o valor de uma vida humana é medido pela taxa de câmbio.
No fim das contas, a preocupação excessiva com o dinheiro revela uma verdade desconfortável: em um sistema hipercapitalista, o capital é a única métrica de sofrimento que o sistema realmente entende.
©️ Beatriz Esmer
