O Voo que nos Come

É de uma mudez assustadora, minha filha. Esse espaço que range dentro da gente, vasto como um deserto que não termina nunca, onde as asas da alma, se é que têm nome, se abrem sem pedir licença. É um voo que não faz vento.

Eu te digo: a gente anseia por isso com uma fome que não é de comida. É uma fome de ser. E dói, sabe? Dói quando a gente esquece que as asas estão lá, guardadas entre as costelas, mofando de falta de uso. Quando sinto falta delas, não é ausência: é esquecimento. Eu me esqueci de mim.

O Movimento Imóvel

Ficar parada é um disfarce. Por fora, a estátua; por dentro, o despenhadeiro. É nesse voo de dentro que a gente se move de verdade, tateando o que não tem forma, encostando no imensurável com as pontas dos dedos da mente.

“Voar não é um deslocamento. É uma náusea de liberdade.”

Não é um ato físico, entende? É um estado de urgência. É quando a gente se eleva para além do que os olhos alcançam, quebrando as paredes invisíveis do silêncio. No fundo, a gente só é quando se desprende.

Voa-se sempre por dentro… porque por fora o chão é duro demais para quem carrega o infinito.

©️Beatriz Esmer

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