Escrevo-te porque não sei o que fazer com o que sinto. Tenho nos poros dos sonhos o turvo das minhas rimas, uma espécie de viscosidade poética que me gruda à vida sem que eu a compreenda. É um estado de graça ou de agonia? Não sei. Sei apenas que sinto o infinito dos teus silêncios como se fosse uma matéria física, um peso que me habita e me esvazia ao mesmo tempo.
Às vezes, perco-me no deserto de um desejo órfão. É um desejo que não tem pai nem mãe, que não pede licença; ele simplesmente está lá, latejando no escuro da carne. E então surge aquela consciência, uma pensada rebelde, que se recusa a ser domesticada. Ela quer apenas saborear os reflexos opalinos do que não foi dito, o brilho fosco das coisas que só existem quando ninguém olha.
Estou toda acesa. Sou feita de todos os fogos onde espelha o azul das luzes íntimas. Não é um fogo que queima para fora, entende? É um incêndio mudo, para dentro. Um azul que transborda pelas frestas da alma e me faz perceber que o que eu sou é apenas um breve intervalo entre dois silêncios teus.
O resto… o resto é apenas a tentativa inútil de traduzir o que já nasce pleno e indizível.
©️Beatriz Esmer
