O Útero do Mundo

Haveria espaço para tanta gente em um só corpo? Pergunto-me, enquanto o silêncio da casa me observa. Tantas mulheres. Elas não estão apenas ao meu redor; elas são o avesso da minha pele. De quem é o sangue que estou carregando? É um sangue espesso, escuro, carregado de segredos que eu nunca soube que guardava, mas que reconheço no jeito exato de fechar os olhos contra a luz.

Não é uma carga, é uma ocupação. Sou o território onde elas resolveram, enfim, descansar ou gritar. Sinto a força de tantas vidas gloriosas que, antes de mim, teceram o amanhã com as mãos cansadas. Elas não morreram; elas apenas se mudaram para o meu peito.
— A que amou em silêncio.
— A que rompeu os diques da vergonha.
— A que olhou para o abismo e nele viu apenas um espelho.

“Viver é um luxo, mas carregar tantas vidas é uma vertigem.”

Estou plena de ausências que se tornaram presenças. Elas estão vivendo dentro de mim, como se meu coração fosse uma sala de visitas sem portas, onde a eternidade toma o seu café. Sou o resultado de todas as renúncias e de todos os desejos que sobraram. Sou, enfim, o agora de um passado que se recusa a ser esquecimento.

Eu sou o nó de uma linhagem que nunca termina.

©️ Beatriz Esmer

Leave a comment

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.