A Economia do Invisível

Houve um tempo em que as horas eram contadas em moedas de ferro, pesadas e frias, mas o tempo, esse bicho que rói o invisível, está mudando de pele. Eu sinto sob a pele uma urgência que não é minha, ou talvez seja a única coisa que realmente me pertence. Um dia, meu amor, o amor será a moeda. Não essa palavra gasta que se diz entre um gole de café e um adeus apressado, mas a substância bruta, o valor absoluto com que trocaremos existências no mercado do mundo. Olharemos uns para os outros e o que restará na palma da mão não será o ouro ou o metal, mas o quanto fomos capazes de nos desmanchar para que o outro existisse.

E é aqui, no centro desse silêncio que me apavora, que eu te encontro e me perco. Tenho um medo que me percorre como um calafrio no meio de uma tarde de sol, uma angústia de bicho que fareja a tempestade. Tenho medo, querido, de que quando chegar esse dia, o dia da grande troca, nós sejamos os mais pobres entre os pobres. Nós nos protegemos tanto, não é? Blindamos o peito com tantas camadas de inteligência e distância, economizamos o gesto com medo da falência do próprio eu, que talvez tenhamos esquecido como se cultiva o capital da alma.

Ficamos ali, sentados sobre o nosso orgulho seco, achando que éramos ricos porque não nos feríamos, porque mantínhamos o cofre trancado contra qualquer invasão de afeto. Se o amor for o único câmbio aceito, o que faremos com as nossas mãos tão limpas e tão vazias? Estaremos lá, nus na nossa escassez, percebendo tardiamente que passamos a vida inteira poupando justamente o que precisávamos ter gastado sem medida, sem cálculo, sem a rede de proteção da dignidade. Seremos a miséria mais profunda e absoluta: aquela que teve a eternidade à disposição, mas preferiu a segurança de ser nada.

©️ Beatriz Esmer

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