O Inacabado é que nos Salva

O dia se desfaz lá fora em nuvens para histórias, massas brancas que não pedem licença para mudar de forma. Elas apenas são. Olho as árvores balançando na brisa e percebo que o movimento é uma aceitação. Elas não lutam contra o vento; elas o traduzem em coreografia.

Dentro, o cheiro de um jantar caseiro, esse rito de terra e fogo, ancora o que em mim ainda flutua. Abrimos uma boa garrafa de tinto. O vinho é o sangue do tempo, descendo quente, desatando os nós da garganta, mas mantendo intactas as palavras não ditas. Porque há coisas que, se ditas, quebram. O entendimento mora no silêncio, exceto por uma música suave que serve de moldura para o que não precisa de explicação.

Preciso de um pouco de espaço para entender as coisas. Um vácuo onde o “eu” possa se esticar sem esbarrar nas paredes da lógica.

Não como eventos finais, mas como processos orgânicos, quase celulares. Existe uma liberdade feroz em entender que você não precisa ter tudo perfeito e curado para compartilhar sua luz. A luz que emana de uma rachadura é, talvez, a única que realmente ilumina o outro.

Todos nós temos partes inacabadas. E é essa falta de acabamento, esse “ainda não”, que nos mantém em fluxo. É o que nos mantém vivos, abertos e reais. Ser inteiro é uma ilusão; ser fragmentado e seguir em frente é a única verdade que suporto.

O que sobra é o essencial: o brilho do que ainda está sendo construído.

©️ Beatriz Esmer

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