O Despejo de Si Mesma

Crer é, antes de tudo, uma arquitetura de urgência. Erguemos paredes para não desabar diante do infinito. A crença é essa casa, de teto baixo e janelas exatas, onde nos instalamos com o conforto cego de quem se acomoda no próprio tamanho. Mas o ser, esse bicho inquieto e mudo, teima em crescer no escuro.

De repente, a sala aperta. Os ombros roçam nos batentes e a alma descobre, num susto de clareza, que já não cabe nos antigos altares. É preciso o êxodo. A maturidade não é o destino, é o corredor escuro entre uma morada e outra; é o intervalo perigoso onde a gente se perde de quem era e ainda não se encontrou em quem será. Às vezes, o medo é tanto que voltamos correndo para a casa velha, batendo o corpo nas paredes estreitas só pelo prazer de um abraço conhecido. Buscamos o conforto, essa mentira mansa.

Mas há aqueles que, num cansaço lúcido, percebem o grande erro: nenhuma casa nos pertence. As chaves não abrem portas externas. A sabedoria é esse desabrigo consciente. É aceitar que o único teto possível é o que nasce de dentro, uma verdade sem tijolos, vasta e assustadora como o próprio silêncio. Viver é não ter onde morar, para finalmente ser.

©️ Beatriz Esmer

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