O Mistério e o Barro

Às vezes, o mistério de ser mulher não é um enigma a ser resolvido, mas uma dor que se instala na carne como uma geografia própria. É uma ferida que não se fecha, e o mais estranho: é uma dor que não se aprende. Como aprender o que já se é? Quando uma mulher nasce, ela comete o erro, ou a glória, de nascer para sempre. É uma continuidade insuportável, um estado de ser que não admite pausas.

O homem, pobre criança armada, nasce em fragmentos. Ele nasce apenas para ferir, como se o golpe fosse sua única forma de contato com o real. Ele morre, fere, pede um perdão que não sabe onde guardar, ama com pressa, escapa por medo de se dissolver e volta a morrer no mesmo lugar onde começou. Há nele uma futilidade exausta. O homem vive a agonia de querer deixar pegadas na neve; ele acredita, com uma inocência quase cruel, que deixar um rastro é existir.

Ele não percebe que a mulher é a neve.

Ela é o silêncio branco que recebe o passo e, ao mesmo tempo, é o horizonte que já se prepara para a primavera. Enquanto ele tenta marcar o chão, ela é o próprio ciclo das estações. A mulher é a proposta que se propõe; ela é uma provocação que olha de volta, uma “esfinge sem segredo” porque o segredo é o próprio ser.

Ele olha para ela e vê um artefato, um mecanismo perigoso, uma bomba de relógio feita de estrelas e vísceras. Mas o homem, esse menino eterno que não sabe ler o que não está escrito, acaba por destruí-la no esforço inútil de compreendê-la. E então, ele chora. Chora o choro dos desamparados, culpando o manual, as instruções, o destino… sem entender que o mistério não se lê. O mistério se vive. Ou se morre nele.

©️ Beatriz Esmer

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