O Nascimento do que Já Era

Nossa história não acaba; ela se demora. É um sopro, um vento que carrega segredos que o tempo ainda não teve coragem de contar. Somos viajantes cansados, sim, mas esse cansaço é uma crosta. Carregamos o peso de sóis e luas que não pedimos, mas que se infiltraram nos poros, tatuando a alma com o rigor da existência. Estamos machucados até o osso. E as cicatrizes? Não são marcas de dor, são constelações. Um mapa de carne para quem teve a audácia de estar vivo.

Partes de mim fugiram. Foram procurar um equilíbrio que não existe, esse tal de centro que a gente inventa para não cair. Elas andam pelo labirinto, tateando o contorno de sonhos que eu esqueci de anotar. Cada fragmento é uma peça que quer voltar, mas que tem medo de se encaixar e perder a liberdade de ser pedaço.

No silêncio, aquele silêncio que faz barulho nos ouvidos, a gente escuta a própria falta. Busco o que perdi na areia dos dias, tentando remendar as rachaduras. O tempo é uma aranha paciente. Ele vai tecendo, ponto por ponto, a matéria do nosso ser. E de repente, sem aviso, as coisas se alinham. É um balé cósmico que acontece dentro do peito.

Quando a última peça se encaixa, não há festa. Há o susto do reconhecimento. É um clique seco. A imagem se completa e eu percebo: eu sempre soube quem eu era, só tinha esquecido de me olhar. Sou feita de poeira de estrela e de esquecimento. Finalmente, chego em casa, e casa sou eu.
Todos nos perdemos. Às vezes é um luxo, um desejo de sumir na mata porque o coração está inquieto demais para as paredes da sala. Outras vezes é o vendaval. O medo, a raiva, a tristeza, esse mato alto que cresce e esconde a saída.

Mas lá no fundo, onde a palavra ainda não nasceu, a alma murmura. Ela sabe. Ela desenha mapas invisíveis. Às vezes eu vejo a luz entre as folhas, a saída do bosque, mas escolho caminhar mais um pouco. O mistério de se desmanchar é atraente demais.

Talvez a gente goste de estar perdido. O selvagem consola. É mais fácil ser mato do que ser gente. Mas a agulha da bússola treme. Ela sempre aponta para o que é essencial.

E a gente sai. Não com trombetas, mas com os olhos piscando na luz do sol, renascidos da dúvida. O caminho pode ser torto, mas a gente é encontrado. Pelo amor, pela graça, por esse saber mudo que nos liga ao que é eterno. Nossa história está incompleta, graças a Deus, e continua se escrevendo na tapeçaria do mundo. Somos o próprio ato de tornar-se.

Minha história não terminou. Ela se desdobra agora, neste instante. Enquanto houver respiração e esse ritmo absurdo do coração contra as costelas, seremos isso: exploradores do infinito, guardiões de um livro que ainda está em branco.

©️ Beatriz Esmer

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