Era uma vez uma mulher que, após o fim, não se tornou nada, mas sim um resto. Um resto que respira. Ela morreu, é verdade, mas esqueceu-se de parar de existir. O amor, ao partir, não levou apenas a mala; levou a moldura do mundo, deixando-a entregue à nudez de uma existência sem paredes. Sobrou-lhe, então, a convivência, essa rotina viscosa, com os próprios abandonos.
Depois do amor, ela desaprendeu a pertencer. Não havia mais o porto do mar nem o chão da terra. O céu? O céu era apenas um teto que pesava, uma superfície azul onde a dor se projetava com mais nitidez durante as noites, quando o silêncio é tão alto que se torna audível. Depois do fim, os ventos cansam de soprar. Não há caminhos de volta porque não há “de onde”. Existe apenas o agora: um instante dilatado, sem princípio, sem final, uma náusea que nem o horizonte consegue engolir.
Depois do amor, a vida torna-se estéril. Tudo é, e continua sendo, naquela teimosia das coisas que não têm o que fazer a não ser permanecer. O existir virou um equívoco, um cansaço que a empurrava para uma queda vertiginosa dentro de si mesma, e dentro de si era o abismo. O tempo, esse monstro que costuma devorar a luz para depois devolvê-la, simplesmente dissolveu-se. A dor era tanta que paralisou o relógio. Nada mais acontecia: nem a lucidez fria, nem o consolo do sonho. O mundo girava lento, atordoado, como se os próprios pés da terra estivessem cansados de andar.
Sobraram caminhos tortos, segredos que não queriam ser revelados, trilhas que levavam invariavelmente ao centro da desilusão.
“A solidão não é a falta de gente, é a abundância de si mesma num espaço vazio.”
Depois do fim, ela engasgava. Qualquer fagulha de esperança era fumaça densa, irritante, que lhe queimava a garganta. Aprendeu, com a crueza de quem toca a carne viva, que a solidão é apenas a régua que mede distâncias e desistências. Nós, os vivos, passamos o tempo reunindo silêncios ásperos para enfeitar as palavras que não dizemos.
No peito, se é que restava peito sob aquele vácuo, ecoava o nada. Um nada vibrante. Tornou-se amante dos olhares que não pousam em lugar nenhum, apaixonada pela inclinação natural das coisas para o pessimismo. No final, depois que o tempo e o amor se retiraram como uma maré que nunca mais volta, o que sobrou?
Sobrou-lhe a poesia. Essa coisa inútil e essencial, que é o que resta quando não se tem mais nada para ser. Poesia!
©️ Beatriz Esmer
