O Transbordamento

Eles me disseram — com essa leveza de quem distribui conselhos que não lhes custam nada — que eu deveria despejar o meu coração em tudo o que fizesse. Como se o coração fosse um jarro, ou uma jarra de água fresca, ou talvez um poço de reserva inesgotável. E eu, que sempre fui um pouco tola diante da vida, obedeci. Obedeci com uma voracidade quase animal. Despejei. Despejei e despejei e despejei. Deixei que a substância do que sou — essa coisa viscosa, pulsante, irremediável que chamam de coração — escorresse pelas frestas das horas, pelas dobradiças dos dias, … Continue reading O Transbordamento

Onde habita o meu desatino

Eu amo o longe, o longínquo que não me alcança porque eu mesma sou a distância. Amo a miragem – essa mentira honesta que me permite ver o que ainda não ousei ser. Amo o abismo, o profundo, o que não tem fundo porque a vida, essa coisa inadiável, exige que eu me perca em torrentes e desertos. E eu tenho a minha loucura. Não a escondo, não a domestico: eu a ergo, alta e nua, como um farol na noite mais negra, um sinal para ninguém, um guia apenas para o meu próprio desespero sagrado. E sinto a chuva, … Continue reading Onde habita o meu desatino

A Anatomia da Tirania: O Poder Soberano no Espetáculo Global

Ao observarmos a tentativa de Donald — o “Agente Laranja” — de intervir nas decisões disciplinares da FIFA, não estamos diante apenas de um delírio de poder, mas de uma manifestação clássica daquilo que Foucault descreveria como a ressurgência do poder soberano sobre o corpo dos sujeitos e das instituições. A Performance da Tirania Foucault nos ensinou que o poder não é algo que se possui, mas algo que se exerce. No entanto, o que vemos aqui é a encenação do poder em sua forma mais arcaica e bruta. Quando um líder exige o cancelamento de um cartão vermelho, ele … Continue reading A Anatomia da Tirania: O Poder Soberano no Espetáculo Global

Monologue:

The Unspoken Honesty(A single spotlight. The character stands center stage, still. A long pause before they speak—measured, deliberate. Their voice is quiet at first, but unwavering.) You may judge me.Go on.But not by the fluency of my tongue,nor by the grandeur of my declarations. Look deeper.Past the syllables.Past the syntax.Into the quiet spaces—those trembling silences where my truth hides,barefoot and unadorned. There.There you’ll find it.The unspoken honesty.Not wrapped in ribbons.Not polished for applause.Just… offered.Freely.Without barter.Without compromise. Honesty—it isn’t a currency.It isn’t something to be traded,or haggled over like fruit in a market.It’s a gem.A rare one.Glowing in the dark,when all … Continue reading Monologue:

A Arquitetura da Fé

A crença é uma casa feita à nossa medida — ou talvez, feita apenas para que a gente caiba dentro de uma mentira suportável. As paredes foram moldadas por um espanto que tentamos domar, e as janelas… ah, as janelas são apenas molduras para uma esperança que insiste em olhar para fora, como se lá fora houvesse algo além do reflexo do nosso próprio rosto. Por um tempo, vivemos ali, num aconchego que é quase um sufoco. É uma casa confortável, feita à imagem e semelhança do que achamos que precisamos para não desmoronar. Mas o tempo tem esse hábito … Continue reading A Arquitetura da Fé

O Funeral da Bola: A Crônica de uma Derrota Anunciada

O Brasil não perdeu apenas um jogo; o Brasil perdeu a sua alma, o seu destino, a sua própria biografia. O que assistimos hoje, com um cinismo que faria o próprio Mefistófeles corar, é o óbvio ululante: o futebol brasileiro, antes uma epopeia de deuses de chuteiras, transformou-se num balcão de negócios, numa repartição pública da mediocridade. Onde outrora víamos o drible como um ato de rebeldia, hoje vemos o cálculo frio do marqueteiro. O jogo tornou-se um subproduto das bets, essa febre que transformou o torcedor em apostador, e o estádio, em uma casa de câmbio barulhenta. O dinheiro … Continue reading O Funeral da Bola: A Crônica de uma Derrota Anunciada

Eu, que me Pergunto

A pergunta me corta o ar, como uma faca que não fere, mas que abre. Será que me honro? Pergunto-me, com esse espanto de quem, pela primeira vez, se vê refletida numa vidraça suja de tempo. Honrar-me. A palavra parece pesada demais, um hábito solene que não cabe na minha urgência de ser. E esta existência — este privilégio, ou esta sentença, quem dirá? — tem sido por mim reconhecida? Caminho por entre as horas com a desatenção de quem pisa em ovos, sem saber se a vida é o ovo ou a casca que deixo pelo caminho. É que … Continue reading Eu, que me Pergunto

Emptying the Cup

I keep pretending to know. I dress myself in the sharp, starch-pressed clothes of certainty, walking through the world with the performative gait of one who has mapped the stars, when in truth, I am only guessing at the dark. There is a knowing within—a dense, vibrating hum—but the moment I reach for it, it liquefies. It slips through my fingers like water, betrayed by the labels and conditions I insist on pinning to it. I require of every situation a name, a category, a neat little box where the experience can be filed and forgotten. I turn the mystery … Continue reading Emptying the Cup

O Incatalogável

Eu não caberia nunca na moldura de um substantivo. Tentar me definir é como tentar segurar o vento entre os dedos: no momento em que aperto, o vento já se tornou outra coisa, já passou, já é o agora que foge. O que eu sou? A pergunta me olha com a insistência de um espelho vazio. Mas, se me calo, se permito que o ruído do mundo se dissolva, eu sinto. Ah, eu sinto uma vastidão que não tem nome, um alargar-se dos sentidos que ultrapassa a pele. É que eu não sou uma coisa feita, pronta, com etiqueta de … Continue reading O Incatalogável

O Grito que Nos Costura

Há dias em que a vida é um ruído insuportável, uma tempestade que me habita e me desabriga. Sinto, com um terror quase místico, que a civilização — esse frágil arranjo de formas que inventamos — está por um fio, pronta a colapsar se não aprendermos, finalmente, a honrar a dor do outro. Como se a dor fosse, na verdade, a nossa única pátria comum. Apesar da minha resistência, apesar dessa minha teimosia em querer ser intocável, há uma verdade que pulsa nos meus ossos, uma certeza que não pede licença: só a abertura do coração torna o mistério visível. … Continue reading O Grito que Nos Costura