O Abismo de Vidro

Há um cansaço que não vem do corpo, mas do susto de existir, confesso estou terrivelmente exausta! Olho para o Caribe e vejo barcos explodindo. Mas não são barcos; são cascas. Insetos de metal sendo esmagados por um dedo invisível, um clique que retira a vida com a leveza de um jogo de crianças. É uma crueldade tão limpa que chega a ser obscena. No asfalto, o ICE mata uma mulher. Ali, no meio do dia, entre o sol e a poeira. A morte deixou de ser um mistério para virar uma estatística de rua. E as máquinas… as máquinas … Continue reading O Abismo de Vidro

O Espetáculo do Ovo Podre

As pessoas tagarelam. Elas usam a boca para mastigar o ar com críticas vazias, mas fecham os olhos para o abismo que Hannah Arendt, com aquela lucidez que fere, já havia mapeado. É um fato seco, como um osso exposto: a república americana não morreu; ela apodreceu por dentro. Desde o sangue de Kennedy na calçada e o mofo de Watergate, o Estado deixou de ser uma ideia para virar um balcão de negócios de homens que usam gravatas para esconder o colapso moral. O crime organizado não “entrou” no governo. Ele se tornou o governo. O que vemos hoje … Continue reading O Espetáculo do Ovo Podre

O Ovo e a Fúria

Era um povo que rezava. E, no entanto, entre um “Amém” e outro, havia um silêncio que não era de Deus; era o silêncio de quem espreita o próprio ódio como se fosse uma joia. Eles diziam “família” com a boca cheia de dentes, mas o que queriam era o osso, o corte, a segurança de que o outro — aquele que não sou eu — estivesse devidamente morto. Votaram. E ao votar, sentiram um prazer quase físico, uma espécie de espasmo de liberdade: a liberdade de finalmente não precisar ser bom. É um cansaço, sabe? Ser bom exige uma … Continue reading O Ovo e a Fúria

A Casa: Um Ensaio de Ser

Minha casa é o santuário do meu feminino, o refúgio onde meu ser se dissolve e se encontra no silêncio de cada canto. Não é apenas teto; é um tecido de texturas, livros e rostos emoldurados — uma sinfonia de padrões que dançam para o meu cansaço e refletem o que, em mim, é abismo. Tal como as paredes são a extensão do que desejo, minha alma é um caleidoscópio de alegrias cruas e dores que ainda não cicatrizaram. Cada vontade é um grito silencioso, um testemunho do que fui, empurrando-me para essa coisa vaga e urgente que chamamos de … Continue reading A Casa: Um Ensaio de Ser

Stay

There is a verticality to certain people. They do not arrive; they occur. Like a seed with a blind, hard will, they find the microscopic fissure in the stone of my solitude—that wall I built with such careful, sterile architecture. They do not ask. To ask is to be outside, and they are already a pulse in the dark, damp chambers where I keep my silence. And then, the word. Stay. At first, it was a cold object, a heavy pebble in the mouth. Foreign. But now it has begun to dissolve, becoming a secretion of my own ribs, a … Continue reading Stay

O Vazio que Transborda

Sento-me. E, ao sentar, percebo que a madeira dessas cadeiras não é apenas madeira; é um corpo que desistiu de ser árvore para virar espera. Elas estão ali, descascadas, expondo o ferro enferrujado como quem expõe as próprias veias após um longo cansaço. É uma nudez que não envergonha. Dizem para sentar-se com os que falharam. Eu entendo. É que quem nunca falhou ainda está muito ocupado com o brilho da própria armadura, e o brilho cega. Quem falhou, ah, esse já quebrou o espelho. No lugar do reflexo perfeito, restou o espaço. E o espaço é a única coisa … Continue reading O Vazio que Transborda

Como o “Mundo de Trump” Redefine a Soberania Latino-Americana

Barueri – O conceito clássico de soberania nacional, aquele que garante aos Estados o direito de autogoverno sem interferências externas, parece estar passando por um processo de “liquidação” na América Latina. Sob a administração de Donald Trump, o hemisfério ocidental não é mais visto como uma coleção de nações parceiras, mas como uma zona de gestão de crises e contenção de adversários. A análise do cenário atual revela que a soberania na região tornou-se, na prática, condicional. Washington não esconde mais o jogo: o direito de um país latino-americano de decidir seu destino termina onde começam as prioridades domésticas da … Continue reading Como o “Mundo de Trump” Redefine a Soberania Latino-Americana

The Arid Silence

There was no desert. There was only the dryness, a thing that existed before I did. I looked at the earth and it was not earth; it was a closed door made of dust. To love was to commit a crime against the void. I tried to transform it—I, with my small, human hands, playing at being a God who breathes into clay. I gave it my saliva, my blood, the heavy waters of a devotion that felt like an illness. I read the ancient verses, the Kama Sutra, but the words were just insects crawling over a stone. They … Continue reading The Arid Silence

All My Feelings Torn Apart

Capítulo 1 It is not enough to build. One must take the debris—the dry, silent dust of what we used to be—and wait for it to breathe. I touch the cracks and feel the mystery of a world forming, not because I want it to, but because the page has its own terrifying hunger. To write is to find the hope that hides in the dirt. Capítulo 2 I do not write with ink; I write with the blood of my own bewilderment. I tear a piece of my heart—not because I am brave, but because I am full. I … Continue reading All My Feelings Torn Apart

O Instante Já: Entre o Crepúsculo e a Aurora

Houve um momento, ali no silêncio da tarde que se desfazia, em que os joelhos cederam. Não foi uma queda, foi uma entrega ao chão. O céu não estava em cima; ele estava dentro, uma vastidão despida, espelho de uma fome que eu não sabia dar nome. E a Verdade, ah, essa coisa perigosa e lúcida, apareceu com sua coroa de luz. Era uma claridade que não iluminava, ela feria. Rasgava a pele, expondo o que eu tinha de mais cru, de mais entranha. Era o horror da própria beleza me obrigando a existir. “Levanta-te”, ela dizia, sem voz. E … Continue reading O Instante Já: Entre o Crepúsculo e a Aurora