E assim, na vastidão desatenta da vida, inventamos caminhos, ou talvez os caminhos nos inventem primeiro. Caminhar não é apenas deslocar o corpo; é um modo de possuir o espaço. Cada passo é uma dança muda, um equilíbrio precário sobre o abismo de ser. E o tropeço? Ah, o tropeço é a lição que o chão nos dá. Caímos, e no impacto da queda, a carne descobre que é viva. Levantamos. Cansamos. Mas é nesse cansaço, essa “coisa” pesada e doce, que o movimento nos revela quem somos.
A fuga, ora veja, é um equívoco de quem não entende de abismos. Fugir não é afastar-se do mundo, mas sim um mergulho sonâmbulo em direção ao centro de si mesmo. É uma jornada para o núcleo da própria existência, onde o silêncio grita.
Não importa a aridez do solo. Nunca deixamos de caminhar, porque parar seria desexistir. Continuamos a escrever as linhas que nos definem, rabiscando sentimentos como quem fere o papel para ter certeza de que a tinta ainda corre. Somos um texto que se escreve enquanto se lê.
Transformamo-nos, pois sentir é um modo de transmutar o ferro em ar.
Porque, enquanto caminhamos e sentimos, existimos perigosamente.
Com cada batida do coração, esse relógio cego que não sabe mentir, escrevemos nossa própria epopeia. Uma história tecida não com grandes glórias, mas com a coragem miúda do cotidiano, com a resiliência da raiz e com o amor que, de tão grande, às vezes dói. Jamais deixamos de sentir. Sentir é o que nos resta, e é tudo.
©️ Beatriz Esmer
