O Desvestir da Alma

Jogue tudo fora. Fique nua, não de panos, mas de significados. É preciso arrancar, com as unhas se necessário, as opiniões que embaçam o brilho liso do olhar e os gostos que retalham o coração em “sim” e “não”. Existe um estado que precede o pensamento, uma essência bruta que ignora o julgamento e desconhece o viés. É ali que eu te encontro.

Nesse silêncio antes da palavra, somos assustadoramente os mesmos. A minha mente-antes-de-pensar e a sua são uma substância única, uma matéria-prima que nos devolve ao que somos: um pulso conectado ao universo. Não há mais “eu” e “você”, há apenas ser.

A árvore, a montanha, a nuvem errante e você… somos fios de um mesmo tecido cósmico, costurados por uma agulha invisível. Na mente-antes-do-verbo, as palavras não servem para separar; elas nem sequer existem. Não há o “igual” nem o “diferente”, pois nada foi ainda nomeado. Somos apenas o acontecimento de existir.

Abandone, então, a arquitetura das ideias que nos isola. Mergulhe nessa unidade que precede o conceito. É nesse deserto de pensamentos que se encontra a paz, uma harmonia vasta e muda, onde finalmente pertencemos à totalidade de tudo o que é.

©️ Beatriz Esmer

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