O Esgarçar do Verbo

Como se escreve “eu te amo” quando a caneta não é mais um prolongamento da mão, mas um objeto estranho, um osso inerte entre dedos que desaprenderam a gravidade? Há um cansaço que não é do corpo, é de uma lucidez excessiva. A mão pesa. A tinta é um líquido mudo que se recusa a sangrar o que o peito retém. Meu coração tornou-se de uma avareza absoluta. Ele guarda os sentimentos como quem guarda um segredo que, se revelado, o mataria. É um egoísmo sagrado: ele bate apenas para dentro, fechado em sua própria redoma, recusando-se à partilha obscena … Continue reading O Esgarçar do Verbo

Silent and present

In the quiet whispers of the wind, in the gentle dance of leaves, lies a truth that transcends mere knowing. How can one articulate the need to feel the steadfast presence of trees, their silent guardianship over time? It is a knowing beyond knowledge, a connection that defies explanation. To awaken to the pulse of a different rhythm, to embrace the cadence of the day and the season, is to surrender to a deeper harmony, a symphony conducted by nature herself. The hourglass of minutes fades into insignificance, eclipsed by the grandeur of moments measured in the shifting hues of … Continue reading Silent and present

People will love …

I’ve learned that most people will love you on their own terms. They’ll love you when it’s beneficial to them, being selfish with their hearts and loving you from a distance. They’ll do right by you if it means you’ll stay down for them. They’ll love you when it feels right, and most will leave whenever it no longer does. And that’s okay. Sometimes, the people we love with our whole hearts decide that’s not enough for them—and that’s okay. The only people who deserve to stay in your life are those who love you unconditionally. Who love you up … Continue reading People will love …

O Encontro com o Inevitável

A mim me parece, filho, que o amor quase sempre encontra os despreparados. E só saberemos se somos um deles se o amor vier a nos encontrar. Eis dolorosa ironia, não haver outra maneira de nos livrarmos da dúvida sem atravessá-la… Porque o amor não é uma visita que se anuncia; é uma invasão. A gente passa a vida polindo a sala, arrumando as almofadas da alma, acreditando que a prontidão é uma espécie de escudo. Que tolice. A prontidão é uma porta trancada por dentro, e o amor não bate, ele simplesmente já está no corredor, olhando-nos com olhos … Continue reading O Encontro com o Inevitável

L’Instant de l’Éternité

Je ne compte pas. Compter, c’est déjà s’absenter. Les années ne sont que des chiffres qui tombent, comme des écailles sèches. Pourtant, doucement, avec une fatalité qui ressemble à une respiration, je vieillis. C’est une métamorphose muette. Mes cheveux blanchissent, oui, mais ce n’est qu’une couleur. Une couleur qui tente d’expliquer l’inexplicable. Au milieu de cet effritement, il y a le cœur. Ce cœur qui ne sait pas s’arrêter. Il aime avec une obstination sauvage. Il y a ces êtres, ces présences qui me touchent dans l’obscur de l’âme, là où les mots n’ont plus de prise. Ils sont mon … Continue reading L’Instant de l’Éternité

Quando o Discurso de Ódio Vem de Cima

A história nos ensina, com cicatrizes profundas, que o ódio não nasce espontaneamente no coração de uma sociedade; ele é cultivado. Ele precisa de solo fértil, de clima favorável e, crucialmente, de sementes plantadas por quem detém o poder da palavra. Quando um líder, seja ele um chefe de estado, um gestor corporativo ou uma figura de influência, autoriza o ódio através de sua retórica, ele não está apenas expressando uma opinião pessoal. Ele está legitimando comportamentos, derrubando barreiras morais e dando permissão para que o desprezo se transforme em ação. O efeito mais insidioso dessa autorização não é a … Continue reading Quando o Discurso de Ódio Vem de Cima

O Incêndio Silencioso

Quanto tempo suporta o peito,essa fornalha trancada a sete chaves?Onde o afeto era rio, agora é leitode cinzas mornas e dores graves.É um cansaço que a alma não traduz,ver o rosto de um irmão tornar-se estranho.Onde havia o abraço, hoje há a cruz,e o peso do silêncio tem o seu tamanho.Não sou feito de ferro, nem de herança bruta,meu corpo é carne, grito e ferida.E nessa amarga e solitária luta,até a água se torna pedra endurecida.Pois se eu abrir a boca e as mãos soltar,se eu der ao mundo a voz do meu tormento,o fogo que guardo não vai apenas … Continue reading O Incêndio Silencioso

O Perfume é uma Invasão

“Queixo-me às rosasMas que bobagemAs rosas não falamSimplesmente as rosas exalamO perfume que roubam de ti, ai..”— Cartola Queixar-se às rosas é, antes de tudo, uma tentativa vã de organizar o caos do coração. Mas as rosas… ah, as rosas são de uma mudez ensurdecedora. Elas não têm o compromisso da palavra, esse fardo que nós, humanos, carregamos como uma redoma de vidro prestes a quebrar. Elas apenas são. O que Cartola chama de “bobagem” eu chamo de estado de graça. Porque, veja bem: ao não falarem, elas dizem o essencial. Elas não explicam o amor; elas o exalam. E … Continue reading O Perfume é uma Invasão