A mim me parece, filho, que o amor quase sempre encontra os despreparados. E só saberemos se somos um deles se o amor vier a nos encontrar. Eis dolorosa ironia, não haver outra maneira de nos livrarmos da dúvida sem atravessá-la…
Porque o amor não é uma visita que se anuncia; é uma invasão. A gente passa a vida polindo a sala, arrumando as almofadas da alma, acreditando que a prontidão é uma espécie de escudo. Que tolice. A prontidão é uma porta trancada por dentro, e o amor não bate, ele simplesmente já está no corredor, olhando-nos com olhos de bicho, esperando que reconheçamos o estranho em nossa própria casa.
A Vertigem da Entrega
Viver a dúvida é o preço de possuir um corpo que sente. Eu me pergunto: será que o que sinto é o amor ou é apenas o susto de ter sido descoberta? O amor nos despe de uma pele que julgávamos definitiva. E dói, claro que dói. É a dor de um nascimento ao contrário, onde a gente volta para dentro de si, mas agora ocupado por um outro.
“Não se entende o amor. O amor é uma matéria em estado bruto que a gente tenta, inutilmente, lapidar com o cansaço dos dias.”
Não fuja da dúvida, meu filho. Ela é a única prova de que você ainda não se tornou estátua. Deixe que o amor o encontre desarmado, distraído, talvez até um pouco feio em sua desordem. Pois é na fresta do que nos falta que o outro finalmente consegue entrar.
©️Beatriz Esmer
