Respiro dias sem luz. Não é a escuridão do medo, mas essa ausência de contorno que me invade, onde o sol esqueceu de existir. São dias sem tempo, entende? O relógio na parede não marca mais a vida; ele apenas mastiga o silêncio. Não há memória. O que passou tornou-se um rastro de pó, e o que virá é um susto que ainda não aconteceu.
Morbidos e crudeli rifugi. Refúgios que me acolhem com a maciez de uma seda velha, mas que me ferem com a precisão de uma faca de cozinha. É um abrigo que me sufoca enquanto me protege. Sinto que estou prestes a descobrir um segredo terrível sobre a minha própria existência, mas o segredo escapa entre os dedos, feito água.
“A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” Mas hoje, a palavra é apenas um eco de algo que se perdeu.
Por isso, peço: traz-me uma esfera de cristal. Não para ler a sorte, pois a sorte é coisa de quem ainda acredita no acaso, mas para enxergar o invisível. Quero ver onde você estará enquanto eu me desfaço. Quero saber, com uma curiosidade que me dói no estômago, quem berrà la vita dalle mie mani…
Quem beberá a vida das minhas mãos?
Minhas mãos estão cheias de um pulsar selvagem e cansado. É um oferecimento mudo. Alguém virá colher o que sobra de mim, ou serei apenas este cálice transbordando para o nada?
©️ Beatriz Esmer
