São dias de um silêncio denso, quase mineral. Eu, que não possuo o hábito de crer e a quem a oração não visita os lábios, sinto o peso da existência sem o apoio de um cajado invisível. Resta-me apenas a Pietas. Não como conceito, mas como essa compaixão crua, esse fio de seda que nos amarra uns aos outros no escuro.
Às vezes me pergunto, e o pensar é um risco, se não seria mais repousante entregar-me a uma fé já pronta. Uma dessas crenças que se veste como uma roupa feita sob medida, costurada por séculos de tradição, onde o sentido da vida já vem mastigado, morno, seguro. É tentador o conforto das raízes alheias.
Mas eu prefiro o perigo da minha própria falta.
Escolho acreditar nessa humanidade que sangra e ri sem manual de instruções. É nela que mora tudo: a dor que não pede licença, o coragem que nasce do medo, o amor que é um espanto constante. O sentido da vida não está fora; ele é a própria vida em seu estado selvagem.
Dentro de cada pessoa, lateja um altar secreto. Não é preciso mármore nem incenso. Descobri, enfim, que o sagrado não habita o céu, mas o encontro. Cada homem é, ele próprio, uma pequena e silenciosa igreja. Ali, no rés-do-chão da alma, residem todas as preces que nunca foram ditas, mas que o coração, em sua urgência de ser, já rezou.
©️Beatriz Esmer
