Às vezes a dor deixa de ser um sentimento para se tornar um objeto sólido, pesado, que não cabe na boca. É uma dor tão vasta que desloca as costelas. O que sobra? O esforço de parir o que não tem nome.
O verbo não surge de uma vontade; ele explode. É um nascimento bruto, um grito que rasga o silêncio do corpo para tentar dizer o indizível. E o verso… ah, o verso é o que tenta carregar essa enormidade nas mãos trêmulas, como quem segura água que vaza entre os dedos.
Onde está o amor nisso tudo?
O amor se esconde nas frestas, naquelas pequenas palavras-limites que sustentam o peso do mundo. Ele é o que se lê no abismo que existe entre um “apesar de tudo” e um “no entanto”. É viver no intervalo. É a aceitação de que o coração, para bater, precisa dessa insistência quase insuportável de continuar sendo.
“Escrever é uma pedra lançada no poço profundo. E o amor é o fundo desse poço, onde o ‘apesar de’ é a única luz que resta.”
©️Beatriz Esmer
