O Alfabeto do Infinito

Escrevo. Não por habilidade, mas por uma fome que não se sacia com pão. São as palavras as memórias do Amor, esse sentimento que, de tanto ser, quase não cabe no corpo. Então escrevo para lembrar do Amor em mim, como quem tateia as paredes de uma sala escura para reconhecer a própria casa.

A poesia, veja bem, não é literatura. É um carinho no outro, um modo de encostar sem usar as mãos; uma gentileza guardada, quase escondida, nos olhos do amante. Se não sou o tradutor de silêncios, esse mudo que fala por sinais de tinta, e se a poesia não for essa coleção de possíveis, então o que resta de mim?

A Revelação pelo Avesso

Sou mulher a viver em cada uma das minhas linhas. É um exercício perigoso: habito as frases, mesmo que nelas jamais me encontrem. Sou o rastro, não o passo. Revelar-me pelo conjunto das minhas palavras é meu único modo de existir publicamente, ainda que em cada uma delas, isoladamente, eu permaneça intacta e não revelada.

Vivo num reino que do meu saber se empresta. É um empréstimo de alma. Confesso aquilo que o próprio reino é, embora eu seja apenas o receptáculo imperfeito. Falta-me o que nele sobra: o infinito. Eu sou o limite; ele é o transbordo.

A escrita é isso: o registro de uma ausência que, por um instante, se faz presença absoluta. No final, as letras são o espelho quebrado de uma verdade que só se sente quando deixamos de ler e passamos a, simplesmente, ser.

©️ Beatriz Esmer

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