4AM

It is four in the morning. A clock is not a machine; it is a pulse. At this hour, the world has no skin. It is an immense, white silence—a space so hollow that it begs to be filled, yet I am afraid to touch it with my clumsy hands. I have two hours. Two hours before the sun, that Great Executioner, arrives to organize the world into “useful” things. I want to write a poem that does not belong to me. I have written others, yes, but I have killed them all. I threw them away like old rinds. … Continue reading 4AM

The Illusion of the Search

There is a silence that precedes the word, and in that silence, I have always been waiting for a displacement of the air. The minute I heard my first love story—that fragile, invented thing—I began the frantic search. I looked for you in the corners of rooms, in the yellowing light of five o’clock, in the faces of strangers who held their breath just as I did. I thought love was a destination, a geographic point where two separate solitudes might collide and finally cease to be lonely. How blind that was. My God, the blindness of looking outward when … Continue reading The Illusion of the Search

Irmãs

Havia entre as duas um silêncio que não era falta de assunto, mas excesso de pertença. Olhavam-se e, no reflexo da pupila de uma, a outra encontrava a própria infância — aquele território de joelhos ralados e segredos soprados sob o lençol, onde o mundo ainda não tinha nomes complicados. Ser irmã era, para elas, um exercício de invasão consentida. “Você me vê?”, perguntava o olhar de Maria, enquanto cortava a maçã com uma precisão quase cruel. Clarice — a outra, a que levava o nome mas buscava a alma — não respondia com palavras. As palavras são duras demais, … Continue reading Irmãs

O Estrangeiro do Ser

Ontem, o mundo emudeceu em Minneapolis, mas o silêncio era de aço. Um agente do ICE disparou contra Renee Good. Trinta e sete anos, três filhos, uma vida interrompida. Nas redes sociais, a comoção se veste de gala: gritam que ela era uma “cidadã americana”. E é aí, nesse grito seletivo, que a minha alma tropeça. Sinto um cansaço que não vem do corpo, mas dessa constatação lúcida e cruel: quando um latino tomba pelas mãos da mesma força, o mundo não para. O silêncio, então, não é de luto; é de indiferença. Parece-me — e esse “parece” dói como … Continue reading O Estrangeiro do Ser

The Instant-Now

The dawn was not a beginning; it was a white silence, a neutral space where the world had not yet been invented. I lay there, trapped in the thick, sweet pulp of the morning light. It was an hour without skin. Everything was dangerously near. I looked at him. He was a solid fact in a room full of shadows. “How much more?” he asked.The question was a small stone dropped into a deep well. It didn’t demand an answer; it demanded a confession of the impossible. I felt the pulse of the house, the vibration of atoms, the terrifying … Continue reading The Instant-Now

The Geometry of the Void

The romance didn’t just end; it became a fossil. Above, a heavy moon slept the sleep of the inanimate. The carnaval folded its bright, paper wings and died. Then came the rent—that dry, mathematical slap of reality. The full stop emerged like a sudden, hard bone in the middle of a soft meal. Everything turned grey, a thick soup of existence. Life, that restless animal, simply packed its bags and fled to Paris, to Rome, to Guinea-Bissau, to Marrakech. It went to some coordinate on a map that smelled of dust and indifference, or perhaps it just sat down in … Continue reading The Geometry of the Void

O Abismo de Vidro

Há um cansaço que não vem do corpo, mas do susto de existir, confesso estou terrivelmente exausta! Olho para o Caribe e vejo barcos explodindo. Mas não são barcos; são cascas. Insetos de metal sendo esmagados por um dedo invisível, um clique que retira a vida com a leveza de um jogo de crianças. É uma crueldade tão limpa que chega a ser obscena. No asfalto, o ICE mata uma mulher. Ali, no meio do dia, entre o sol e a poeira. A morte deixou de ser um mistério para virar uma estatística de rua. E as máquinas… as máquinas … Continue reading O Abismo de Vidro

O Espetáculo do Ovo Podre

As pessoas tagarelam. Elas usam a boca para mastigar o ar com críticas vazias, mas fecham os olhos para o abismo que Hannah Arendt, com aquela lucidez que fere, já havia mapeado. É um fato seco, como um osso exposto: a república americana não morreu; ela apodreceu por dentro. Desde o sangue de Kennedy na calçada e o mofo de Watergate, o Estado deixou de ser uma ideia para virar um balcão de negócios de homens que usam gravatas para esconder o colapso moral. O crime organizado não “entrou” no governo. Ele se tornou o governo. O que vemos hoje … Continue reading O Espetáculo do Ovo Podre

O Ovo e a Fúria

Era um povo que rezava. E, no entanto, entre um “Amém” e outro, havia um silêncio que não era de Deus; era o silêncio de quem espreita o próprio ódio como se fosse uma joia. Eles diziam “família” com a boca cheia de dentes, mas o que queriam era o osso, o corte, a segurança de que o outro — aquele que não sou eu — estivesse devidamente morto. Votaram. E ao votar, sentiram um prazer quase físico, uma espécie de espasmo de liberdade: a liberdade de finalmente não precisar ser bom. É um cansaço, sabe? Ser bom exige uma … Continue reading O Ovo e a Fúria

A Casa: Um Ensaio de Ser

Minha casa é o santuário do meu feminino, o refúgio onde meu ser se dissolve e se encontra no silêncio de cada canto. Não é apenas teto; é um tecido de texturas, livros e rostos emoldurados — uma sinfonia de padrões que dançam para o meu cansaço e refletem o que, em mim, é abismo. Tal como as paredes são a extensão do que desejo, minha alma é um caleidoscópio de alegrias cruas e dores que ainda não cicatrizaram. Cada vontade é um grito silencioso, um testemunho do que fui, empurrando-me para essa coisa vaga e urgente que chamamos de … Continue reading A Casa: Um Ensaio de Ser