O Rio, o Mar e o Silêncio

Há noites em que a casa dorme, as paredes guardam ecos de fantasmas antigos e o peito aperta com uma dor serena, quase doce. É nesse território onde o visível e o invisível se tocam que reencontro o que fomos. Yo y el mar. Eu era apenas este curso estreito, rasgado entre margens áridas e silêncios pesados, buscando na pressa das águas um destino que me salvasse da própria secura. Nasci de fontes fundas, do choro antigo da terra e do frio das montanhas. Cada pedra no meu leito era uma cicatriz; cada peixe que nadava contracorrente, um pensamento teimoso … Continue reading O Rio, o Mar e o Silêncio

Poetic Reflection on Words

How naive to believe in words strong enough to hold off the rain, when the weakest words cause the storm… Words have this small, almost invisible weight that we carry at our fingertips like someone handling shards of glass in the dark. We believe, in that crude illusion of those who want to save themselves, that a dike of well-washed phrases can hold back the downpour of the world. We want to lower the crest of the gale with polished nouns, as if grammar could challenge the tempest. But it is a serious mistake. The rain, after all, is only … Continue reading Poetic Reflection on Words

Crônica: Filha do Céu

Como pode uma filha do céu desvendar as próprias raízes, se o seu princípio habita o silêncio vasto dos astros? Na imensidão do alto, onde a luz antiga desenha mapas que a terra desconhece, silencio meus passos para me reconhecer apenas como um sopro breve na eternidade, uma errante que tenta prender o vento cósmico entre as mãos. Já não restam lágrimas para preencher os abismos dos oceanos que me afastam do incerto; agora, apenas permaneço na margem, contemplando o Ocidente onde o sol se desfaz em âmbar e índigo. O toque salgado das ondas que beijam meus pés devolve-me … Continue reading Crônica: Filha do Céu

Saudade, Amor e a Luta Diária

Hoje eu acordei com uma saudade assim, espessa e antiga, algo que me aperta por dentro e estrangula a alma com a delicadeza de um nó cego na garganta. É um peso que não avisa, que desaba sobre o peito logo nos primeiros clarões da manhã, como se o passado inteiro quisesse caber no silêncio do meu quarto. A gente passa a vida inteira tentando decifrar esse labirinto que é existir. Sabendo, no fundo, que navegar é preciso — que é preciso rasgar os mares do tempo, mesmo quando o barco é frágil e a cerração do mundo nos cega. … Continue reading Saudade, Amor e a Luta Diária

Writing in the Rain

It’s raining here, and the wind doesn’t want to stop knocking on my window. I love the rain, but I still can’t understand why I write every time it appears. Maybe because, if you know how to listen to the rain and the silences, they have their own fragile, hidden words. Or maybe because it falls on your indecipherable thoughts, while I’m here convincing myself that, no matter how much something can tear us to shreds, or leave us like pieces in a trunk or skeletons in a closet, we will never be completely destroyed. I write because there are … Continue reading Writing in the Rain

O Relevo da Pele

A pele não é um invólucro mudo; ela guarda, em silêncio, a urgência das águas que empurram os navegantes para longe do porto. Carrega a antiga rota dos corações que adoeceram de saudade em terras estranhas, tecendo, nas fendas invisíveis do tempo, a geografia de continentes que se romperam por dentro. Não nos pertencemos. Somos apenas inquilinos temporários deste território de carne, viajantes que tateiam o próprio corpo como quem decifra um mapa antigo, manchado pelo sal e pelo vento. Cada vinco, cada pequena cicatriz que o tempo desenha sem pedir licença, é a testemunha silenciosa de vidas que já … Continue reading O Relevo da Pele

The Big Difference

She had always known the difference—between being admired and being understood. Compliments came easily: “You’re cute,” “You’re funny,” “You’re something else.” But she wasn’t looking for someone who merely noticed her. She was waiting for someone who wanted to know her. Not just the obvious things. Not just the way she smiled or the way her laugh lingered in a room. She longed for someone who wanted to know every detail—someone who would read every word she wrote, not just skim the surface. Someone who would listen to her favorite song and ask why that one note made her heart … Continue reading The Big Difference

The Geography of a Small Heart

There is a quiet, fragile geography within the ribs. A small heart, seemingly bound by bone and breath, yet holding a territory as vast as an ocean. How strange it is that something so finite can shelter a love that refuses containment—a love that spills over the edges, caught by the wandering wind, restless and untamed. This immense affection does not ask for permission. It descends in a whisper, heavy and sweet like ripe fruit, loosening the pomegranate’s fierce grip upon its seeds, only to tumble silently into the dark, questioning depths of two almond eyes. It knows the terrain … Continue reading The Geography of a Small Heart

O Veneno do Ódio

Há um veneno fino e constante que escorre pelas frestas dos nossos dias. Ele não faz barulho, mas desfaz as paredes da casa comum onde todos deveríamos habitar. O ódio. As mortes. As vidas ceifadas na calada de uma rotina indiferente. A violência que se abate sobre as mulheres, rasgando o silêncio com o eco seco de bofetadas e palavras que ferem mais que punhais. Tudo isso traça um mapa sangrento sobre a terra. Uma linha invisível, sim, mas implacável, erguida para fragmentar o que temos de mais sagrado: nossa sanidade, nossa humanidade, nossa consciência. Transformaram o mundo em um … Continue reading O Veneno do Ódio

A Estação da Graça

Há invernos que nos habitam por dentro. Não o frio de escarcha nas vidraças, mas aquele que gela o canto mais íntimo da alma, onde guardamos as nossas culpas mudas e os rigores com que nos julgamos. Caminhei por longas noites de autorreprovação, tateando paredes de dúvidas, achando que o peso do mundo era uma herança obrigatória que eu precisava carregar até o fim. Mas a vida, com sua insistência teimosa em continuar, traz o tempo do degelo. Olho para fora e percebo que mereço uma primavera. Sim, eu a mereço — e a ninguém devo satisfações por este desabrochar. … Continue reading A Estação da Graça