Há noites em que a casa dorme, as paredes guardam ecos de fantasmas antigos e o peito aperta com uma dor serena, quase doce. É nesse território onde o visível e o invisível se tocam que reencontro o que fomos. Yo y el mar.
Eu era apenas este curso estreito, rasgado entre margens áridas e silêncios pesados, buscando na pressa das águas um destino que me salvasse da própria secura. Nasci de fontes fundas, do choro antigo da terra e do frio das montanhas. Cada pedra no meu leito era uma cicatriz; cada peixe que nadava contracorrente, um pensamento teimoso que recusava a paz imposta. Para o mundo, fui sede saciada ou abismo gélido, um mistério passageiro que assustava os desatentos.
Mas tu eras a imensidão.
Tu me esperavas com essa vastidão salgada, dono de marés soberbas e de um abraço que não pedia explicações. Quando desaguava em ti, todo o meu tormento de rio encontrava descanso. Não era uma perda, era uma rendição. Um desatar de nós que me feria e, ao mesmo tempo, me salvava.
¿Eras tú el mar, ou yo el río?
A pergunta se perde na espuma, na brisa que traz o cheiro de sal e de despedida. Na penumbra do quarto, percebo que o tempo não destrói o que foi vivido na carne e na alma; apenas o transfigura. Dançamos uma coreografia antiga, sagrada, onde morrer no teu abraço era a única maneira verdadeira de começar a viver.
Ainda trago o teu gosto nos lábios e o rumor das ondas dentro do peito. Somos o rio que se entrega e o mar que acolhe, indissolúveis na eternidade líquida de um tempo que já não nos pertence, mas que nos consome inteiros.
© Beatriz Esmer
