O Peso da Sede

Eis que me descubro, de repente, diante de uma garrafa de veludo e rótulo dourado, dessas que custam o equivalente ao suor de meses e ao silêncio de anos. O vinho mais caro do mundo. Ele está ali, imponente, exigindo de mim uma reverência que os meus olhos cansados simplesmente não conseguem formular. Porque há em mim uma secura antiga, uma urgência áspera, uma sede que rasga a garganta e pede contas.

E, no entanto, o que tenho é o luxo. O supérfluo engarrafado.

Como é estranho o modo como nos enganamos. Gastamos a vida inteira aprendendo a decifrar safras, a elogia taninos, a fingir que a complexidade de um líquido espesso e rubro pode aplacar o que quer que seja. Criamos rituais, taças de cristal diáfano, conversas inteligentes sobre notas de carvalho e frutas vermelhas, enquanto por dentro a alma estala de aridez.

Eu mesma já escrevi tantos odes aos Merlots, Malbecs e Pinot Noire, me derretendo na poesia das notas de seus sabores…

O vinho mais caro não serve para nada quando a sede é de água.

A frase pulsa com uma brutalidade límpida. A água é desprovida de prestígio. Não tem grife, não ganha medalhas em feiras internacionais, não ostenta anos de envelhecimento em caves subterrâneas escuras. Ela é comum. Ela é transparente. Ela é a própria vida em seu estado mais cru, humilde e desarmado. Quando o corpo arde em febre de desidratação, quando a língua cola no céu da boca e o deserto avança por dentro, o que importa o preço do que se bebe? O ouro líquido torna-se um insulto. Uma gota d’água da torneira, batendo fresca no copo, vale mais do que todos os vinhedos de Bordeaux.

Pergunto-me, com um certo pavor, quantas vezes não habitei o erro. Quantas vezes não ofereci vinhos caros às minhas fomes mais profundas. Troquei o afeto simples por discursos rebuscados; troquei o abraço honesto por reuniões brilhantes; troquei a verdade nua pela pose ornamentada. Quis impressionar a sede. Como se a sede pudesse ser subornada pela etiqueta.

A sede é uma criatura elementar. Ela não quer status; ela quer saciedade. Ela quer o contato imediato com a fonte.

Olho novamente para a garrafa cintilante na penumbra da sala. Ela continua ali, muda, cara, perfeitamente inútil para o incêndio que me consome por dentro. Suspiro, afasto o cristal com um gesto quase irônico, descalço os sapatos da exigência social e levanto-me em busca do filtro da cozinha. É de água que eu preciso. Apenas de água. Para que o milagre modesto de continuar vivendo possa, enfim, acontecer sem intermediários.

© Beatriz Esmer

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