Hoje eu acordei com uma saudade assim, espessa e antiga, algo que me aperta por dentro e estrangula a alma com a delicadeza de um nó cego na garganta. É um peso que não avisa, que desaba sobre o peito logo nos primeiros clarões da manhã, como se o passado inteiro quisesse caber no silêncio do meu quarto.
A gente passa a vida inteira tentando decifrar esse labirinto que é existir. Sabendo, no fundo, que navegar é preciso — que é preciso rasgar os mares do tempo, mesmo quando o barco é frágil e a cerração do mundo nos cega. Mas é preciso também, e sobretudo, acreditar no impossível. Porque a realidade crua, por si só, às vezes maltrata; é preciso inventar um pouco de sonho para conseguir respirar.
Viver é exatamente isso: este rasgar e remendar diário. Acordar com os estilhaços da véspera e decidir recomeçar, vestindo a coragem avariada. É tecer a crença teimosa de que nascemos para vencer, não no sentido estrondoso das vitórias que o mundo aplaude, mas na conquista íntima de continuarmos humanos, inteiros e capazes de sentir.
Que o meu medo — esse hóspede sombrio que às vezes senta à beira da minha cama — não me paralise e não me impeça de lutar. Que eu saiba atravessar os meus próprios invernos sem perder a ternura. No fim das contas, a balança é simples e tirana: metade de mim é um amor desmedido, rasgado e pulsante; e a outra metade, ah, a outra metade também é amor.
© Beatriz Esmer
