Como pode uma filha do céu desvendar as próprias raízes, se o seu princípio habita o silêncio vasto dos astros? Na imensidão do alto, onde a luz antiga desenha mapas que a terra desconhece, silencio meus passos para me reconhecer apenas como um sopro breve na eternidade, uma errante que tenta prender o vento cósmico entre as mãos.
Já não restam lágrimas para preencher os abismos dos oceanos que me afastam do incerto; agora, apenas permaneço na margem, contemplando o Ocidente onde o sol se desfaz em âmbar e índigo. O toque salgado das ondas que beijam meus pés devolve-me o eco de geografias distantes, sussurrando memórias que a pressa do mundo quase apagou.
E quando a lua derrama sua claridade sobre a pele, tua ausência se faz presença calma, um toque de poeira estelar que afaga meus cabelos e agita as marés ocultas do peito. És o lar que não tem paredes, a pátria tecida no avesso do meu ser, chamando-me por caminhos invisíveis que desafiam qualquer nome ou coordenada terrena.
Talvez o mistério não tenha sido feito para desatar, mas para ser habitado com reverência, pois a própria jornada já é a revelação que tanto procuro. Ergo os olhos para o infinito e, entre constelações e brisas, repito a prece antiga: guia-me, ancestrais celestes, permitindo que eu dance na borda do indizível, pois sou, na mesma medida, poeira de estrelas e saudade.
© Beatriz Esmer
