A pele não é um invólucro mudo; ela guarda, em silêncio, a urgência das águas que empurram os navegantes para longe do porto. Carrega a antiga rota dos corações que adoeceram de saudade em terras estranhas, tecendo, nas fendas invisíveis do tempo, a geografia de continentes que se romperam por dentro.
Não nos pertencemos. Somos apenas inquilinos temporários deste território de carne, viajantes que tateiam o próprio corpo como quem decifra um mapa antigo, manchado pelo sal e pelo vento. Cada vinco, cada pequena cicatriz que o tempo desenha sem pedir licença, é a testemunha silenciosa de vidas que já habitamos. São dores que amadureceram, amores que naufragaram e recomeços que brotaram à revelia da nossa vontade.
Caminhamos assim, na condição de peregrinos de nós mesmos. A respiração é o compasso, o pulso é o eco de um mar que insiste em bater contra a costa. E a pele permanece ali — um livro aberto, um universo suspenso entre o que fomos e o que ainda nos resta traduzir.
© Beatriz Esmer
