Há invernos que nos habitam por dentro. Não o frio de escarcha nas vidraças, mas aquele que gela o canto mais íntimo da alma, onde guardamos as nossas culpas mudas e os rigores com que nos julgamos. Caminhei por longas noites de autorreprovação, tateando paredes de dúvidas, achando que o peso do mundo era uma herança obrigatória que eu precisava carregar até o fim.
Mas a vida, com sua insistência teimosa em continuar, traz o tempo do degelo.
Olho para fora e percebo que mereço uma primavera. Sim, eu a mereço — e a ninguém devo satisfações por este desabrochar.
Foi preciso coragem para desatar os nós das expectativas alheias, esos laços invisíveis que os outros tecem e que nós, por bondade ou exaustão, aceitamos vestir. Soltei o peso do que nunca me pertenceu. Em cada passo dessa travessia árdua, despojei-me do supérfluo para reencontrar o essencial: o som da minha própria voz, o sussurro mansinho do meu coração que pedia trégua.
Agora, o mundo desperta em sua sinfonia verde e frágil. Os pássaros cantam sem pedir licença, as cores irrompem da terra escura sem culpa. E eu me ponho de pé, inteira, desatada das amarras do ontem. Não devo nada a ninguém. Dei tudo o que pude, entreguei fragmentos de mim até onde as forças alcançaram. Agora, o tempo é de me dar abrigo.
Quero habitar esta estação com inteireza. Receber o calor do sol como um perdão cotidiano, deixar que o vento leve o que já cumpriu seu ciclo. Cuidarei dos meus sonhos como quem rega uma muda rara na varanda, cultivando uma vida que finalmente tem o meu rosto, o meu ritmo, a minha verdade.
Nesta primavera, sou livre. E sou o bastante.
© Beatriz Esmer
