No silêncio mais fundo das coisas, onde a alma desata seus nós e o mundo silencia o seu barulho inútil, eu me pergunto sobre a medida exata do afeto e da dor. É nessa penumbra da intimidade que a gente descobre: saber partir é um ato de inteireza.
Não é fuga, não. É resgate. Porque o amor, quando se avilta e vira correnteza pesada, deixa de ser morada para ser cativeiro. E a gente se afasta — não por orgulho ou fraqueza, mas por essa urgência dolorosa de honrar o que ainda restou de sagrado em nós.
Como é que a gente sabe a hora exata? A gente escuta o que a pele cala e o peito chora miúdo. Quando o riso se esvai e vira um pranto sem eco, quando o calor do abraço esfria por dentro, quando a ausência do outro se derrama como um alívio… é aí que a bússola aponta. Ela aponta para o único refúgio que nos pertence: o nosso próprio coração.
Ah, e quem a gente ama? As estrelas também caem, afinal. O amor, às vezes, desmancha como um fio puído, e cabe a nós recolher as pontas desfiadas. A gente solta a mão, não com raiva ou rancor, mas com um pudor reverente pelo que foi belo, pelas marcas invisíveis que a vida riscou na nossa pele.
Quando é que o amor começa a nos diminuir por dentro? Essa é a ferida aberta. O amor verdadeiro deveria ser bálsamo, e não peçonha. Se ele corrói o que somos, se apaga a nossa luz e nos esvazia, é preciso ter a coragem de atravessar a noite e reencontrar o próprio brilho. O amor deveria ser espelho que reflete a nossa grandeza, nunca véu que nos esconde de nós mesmos.
Por isso, meu bem, quando a dor pesar mais do que a alegria, quando o nome do outro já não vibrar em sintonia com a vida, tome fôlego. Parta. Sem ódio, mas com a graça dos que se perdoam. Porque nessa partida, por mais dolorosa que seja, a gente faz o caminho de volta para casa: o encontro mais profundo e verdadeiro com quem a gente é. 🙏🏾❤️
©️ Beatriz Esmer
